:: sexta-feira, 24 de março de 2006
Historia da pesquisa arqueológica no Brasil
Nesta coluna gostaria de enfatizar um pouco sobre pesquisa arqueológica e seu histórico. É uma longa historia, por isso farei por partes... nesta primeira parte abordarei o inicio da arqueologia no País e algumas figuras chaves que contribuíram para o seu desenvolvimento.
Na Europa, a arqueologia nasceu somente no século XVIII, com as escavações de Pompéia. As “culturas primitivas” não tinham muito interesse no meio acadêmico.
As primeiras publicações que apresentam algum tipo de informação ao arqueólogo sobre o Brasil, são, sobretudo, de cunho etnográfico, e ajudaram na localização de tribos indígenas extintas ou em vias de extinção; descrição de estruturas(habitação,ateliês, etc.) e instrumentos para diversas utilidades, que os indígenas atuais não mais produzem. Os sítios arqueológicos raramente eram reconhecidos, com algumas exceções como sambaquis e inscrições rupestres, que eram mais reconhecíveis devido ao apelo visual. Cronistas como Hans Staden, Jean De Léry, A. Thevet entre outros, descreveram com riqueza de detalhes como era o nosso litoral e como viviam os índios,seus costumes e dialetos, porem, sem um cunho cientifico. Eram apenas relatos de suas viagens pelas terras tupiniquins. Por conseqüência, os Tupis, que habitavam nossa costa em quase sua totalidade nos séculos XVI e XVII, foram os mais relatados por esses viajantes (e também os primeiros a serem dizimados). Não há muitas informações além desses relatórios produzidos pelos cronistas, pois durante toda colonização portuguesa, pouco se estudou sobre as antigas culturas indígenas. Oficiais da Coroa faziam apenas algumas coletas de objetos curiosos e exóticos para o Gabinete Real de Curiosidades.
A instalação da Corte portuguesa no País, no século XIX fez com que o território fosse descrito e estudado com mais detalhes e por necessidade. Era preciso conhecer melhor o Brasil para uma exploração (comercial ou militar) sistemática, diferentemente dos bandeirantes, que buscavam apenas riquezas minerais. Muitas dessas explorações realizads pela Coroa e outros governos, contavam com naturalistas (Lund, Saint-Hilaire, etc), geralmente europeus, que estavam a serviço ou por simples paixão pelo estudo da natureza e suas “populações indígenas puras”. Para a Arqueologia foi importante, pois apesar de não se preocuparem diretamente com o tema, mencionaram vestígios e abriram maior espaço para as discussões acadêmicas, pois já era maior também o interesse nas culturas mais antigas, tanto que nos fins desse século já haviam sido feitas escavações no Brasil. Devemos nos lembrar que, Dom Pedro II foi um grande apreciador das ciências em geral. Contribuiu com a criação de entidades cientificas que ajudaram muito no desenvolvimento não só da Arqueologia, como da Biologia, Geologia entre outras. O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, recebeu diversas coleções oriundas da África e Europa ( até das primeiras escavações pré-históricas realizadas no mundo!).
Entre 1834 e 1880, data de seu falecimento, Peter Wilhelm Lund, botânico dinamarquês e paleontólogo amador passa a morar na então aldeia de Lagoa Santa, Minas Gerais. Pesquisou centenas de grutas nessa região, encontrando diversos ossos de animais fossilizados que se conservaram, apesar de serem milenares. Com estudo sistemático desse material (coleta e descrição), o Botânico constatou uma rica fauna extinta, animais que viveram a milhares de anos atrás nessa região de Minas. Hoje Lund é conhecido como o “pai da paleontologia brasileira”. Mas ele também é uma figura importante para Arqueologia. Na lagoa subterrânea do Sumidouro encontrou ossos humanos associados à vestígios desses animais extintos. Com isso houve um grande rebuliço no meio cientifico, pois não se acreditava na existência humana tão antiga, a ponto de ter coexistido com uma fauna extinta, muito devido às escrituras bíblicas, que estavam fortemente presente no meio acadêmico. Era difícil acreditar na presença do homem nas Américas antes do “grande Dilúvio” descrito na Bíblia, até mesmo para cientistas renomados. Lund, cristão e muito religioso, parou de estudar e investigar tal problema em 1844, mas já havia notado evoluções e semelhanças sucessivas entre as faunas extinta e atual. Nem mesmo a teoria evolucionista de Darwin, exposta em 1848, convenceu Lund a continuar sua investigação. Silenciou-se, evitando visitas de acadêmicos importantes até sua morte, 1880 em Lagoa Santa. Porem com a aceitação da possibilidade da existência antiga do homem na América, já no século XX, suas teorias foram novamente estudadas e são temas de discussões no meio acadêmico até os dias atuais.
Na próxima parte, abordarei a importância e o papel dos museus no meio acadêmico e social do Brasil e a primeira metade do século XX no desenvolvimento da arqueologia brasileira. Até lá...

publicado por Alexandre Almeida | 14:39
:: quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006
A importância do patrimônio arqueológico
A Arqueologia (do grego, archeos, antigo + logos, estudo) é uma ciência que busca e estuda vestígios que atestam e testemunham a presença humana no passado. Através de vestígios materiais como cerâmica,

instrumentos de pedra ou osso, restos mortais humanos e animais, de alimentação, grafismos rupestres, por fim, qualquer vestígio que possa caracterizar uma ação antrópica,

o arqueólogo tem a missão de montar um quebra-cabeças, mesmo faltando muitas peças, para tentar criar um modelo representativo de como viviam as pessoas ou grupos que deixaram tais registros encontrados hoje em sítios arqueológicos.

São as heranças mais valiosas deixadas por nossos antepassados. Através destes, é possível entender um pouco mais dos hábitos, crenças e costumes dos povos que habitaram determinados lugares nesse mundo. Claro que muitos vestígios são perdidos pela própria ação do tempo e outros agentes de origem natural. A madeira, couro de animais, penas, ossos e muitos outros produtos da natureza, que certamente foram muito utilizados pelos homens não resistem à decomposição completa, salvo em casos específicos, onde o próprio ambiente ajuda na preservação. Infelizmente os arqueólogos e a sociedade em geral têm perdido informações importantes e valiosas para o meio cientifico, devido à destruição parcial e em muitos casos total de sítios arqueológicos, por parte do maior interessado no assunto, o próprio Homem. Suas ações, visam, na maioria das vezes o lucro em detrimento do valor cultural do patrimônio arqueológico brasileiro. Às vezes, o que é pior, pela simples falta de informação da importância de tais registros deixados no passado, tem prejudicado e muito, a pesquisa e a preservação dos sítios arqueológicos.

Pessoas que recolhem artefatos arqueológicos, visando o comércio ou coleção particular, pichações e descamação dos grafismos rupestres, a própria visita ao sitio sem um monitoramento adequado, atividades agrícolas, empresas que dependem do meio ambiente para explorar algum produto ou área, são alguns exemplos de entraves para o avanço da pesquisa arqueológica, pois estes podem estar destruindo os registros que deveriam ser estudados. Todo sitio arqueológico é um Bem da União, portanto não pode ser depredado ou destruído.

Essas ações têm sido combatidas através de leis, a nível Federal, Estadual e Municipal, de proteção ao patrimônio arqueológico e com a criação de parques ou áreas de proteção ambiental. Hoje, uma empresa responsável por determinada atividade econômica (mineração, hidroelétricas, linhas de transmissão, entre outras.) que queira explorar o meio ambiente, deve por lei, elaborar um estudo de impacto ambiental, social e patrimonial. Com isso, muitos sítios têm sido identificados, protegidos ou ainda tem parte de seus artefatos resgatados através de programas de salvamento. Sem este estudo, a empresa não consegue licenciamento ambiental para exploração da área e pode ser punida de acordo com as leis penais, caso não cumpra tal resolução. Mesmo com tantas leis e normas que visam a proteção do patrimônio arqueológico, a maioria dos sítios ainda se encontra desprotegidos. Muitos sítios situam-se em zonas rurais ou lugares de difícil acesso, dificultando uma fiscalização mais atuante dos órgãos patrimoniais e ambientais. Por outro lado, esse isolamento ou distanciamento dos centros urbanos pode ajudar na preservação dos sítios arqueológicos, uma vez que poucas pessoas saberiam da existência dos mesmos. O ideal seria uma maior conscientização da importância dos sítios por parte da própria população. A melhor maneira de se atingir isso,é através da educação nas escolas e universidades, com projetos que visem a educação patrimonial, como construção de museus com exposições fixas ou itinerantes, material didático, visitas monitoradas e controladas aos sítios arqueológicos e a formação de técnicos e arqueólogos.

publicado por Alexandre Almeida | 18:46
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