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CONTOS DA VÓ FIA



O CASO DAS CALCINHAS



No passado, muito no passado mesmo, as moças de família eram consideradas santas; pena que não eram. Eram moças alegres, e travessas como as do presente, só que mais sorrateiras, pelo pavor infundido pelos pais, verdadeiros feitores de donzelas.

Como todas as outras, Maria Alice, tinha muito medo de seu velho pai, mas era namoradeira e às vezes se excedia nas brincadeiras com seu namorado Juliano.

Numa dessas brincadeiras ela lhe deu de presente duas de suas calcinhas, uma cor de rosa e outra amarelinha, mas por azar, seu nome estava bordado com muito capricho por dentro do cós das mesmas.

O rapaz, para ter sonhos agradáveis, colocava debaixo do travesseiro suas prendas à noite, e as retirava pela manhã. Mas uma só vez ele se esqueceu de guardá-las e foram encontradas por Sá Vicência, sua escandalizada mãe, que querendo se vingar do que considerava um despropósito e atentado ao pudor, deu as comprometedoras pecinhas de presente a sua lavadeira, a negra Conceição.

A negra não fez por menos, saiu exibindo seus troféus e contando horrores da pobre Maria Alice por toda a periferia da Vila de São João.

Tanto falou a lavadeira no assunto desonroso, que acabou indo parar nos ouvidos da apavorada mãe da mocinha, que tentou por todos os meios sigilosos a seu alcance, reaver as tais calcinhas.

Mas as propostas de lucro fácil feitas à negra foram em vão, ela preferia ter um bom assunto na bica d água com suas colegas de profissão e ter provas.

A pobre senhora já desesperada, procurou o Delegado Zurico em particular, e pediu ajuda para resolver em segredo o melindroso caso.

Zurico prometeu dar um jeito e depois que a dona se foi, ele deu tratos a cabeça para achar uma solução honrosa para o considerado escabroso assunto, e pensou, pensou, e achou.

Dirigiu-se à noite para a casa de Conceição e lhe ofereceu uma peça de dez metros de morim Ave-Maria, em troca das faladas calcinhas. A malcriada crioula lhe disse que gostava das peças e não faria negócio, e como o país era livre, ficava o dito pelo não dito.

O azar da lavadeira foi o Delegado ser amigo da família da moça, e apesar de estar muito escandalizado com o ocorrido, partiu para a grosseria e perdendo a paciência deu valente surra na linguaruda e apreendeu as já famosas peças íntimas, mandou a negra que se calasse, ou seria presa até ficar muda.

Chegando em casa, ainda muito zangado, mandou sua senhora Sá Marica chamar as interessadas no caso, entregou as comprometedoras calcinhas à legítima dona e deu-lhe sérios conselhos ameaçando avisar a seu velho e bravo pai, se qualquer coisa errada ocorresse dali para a frente.

Pediu em seguida à mãe da doidinha que lhe desse o merecido corretivo ali mesmo, para que o pai dela não percebesse nada. Em vista da recusa da senhora em exemplar a filha, pois considerava o ocorrido uma brincadeira, agora que já estava tudo resolvido, o truculento Delegado perdeu de novo a paciência e deitando a moça travessa nos joelhos aplicou-lhe duas dúzias de valentes palmadas. Uma dúzia para cada calcinha.

E de sobra passou tremenda descompostura na tranqüila e tolerante mãe de família, e o caso das calcinhas indiscretas ficou por isso mesmo.

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