Morava numa fazenda nos arredores de Vila de São João um colono de péssima aparência, era feio como a fome, branco avermelhado, de pele cheia de calombos, e cabelo ralo e alourado, lábio superior saliente e inferior pendente, e para piorar era cambaio. Feio assim só o tinhoso. Mas em compensação sua mulher Bentinha era uma moreninha linda: pele cor de caramelo, olhos rasgados e verdes, cabelos negros e encaracolados, dentinhos miúdos e brancos como pérolas e seu corpo era a própria imagem do pecado. Tião Esquilo era louco pela sua Bentinha; trabalhava por dois, para que nada faltasse a sua morena. A moça tanto tinha de bonita como de safada, e ornava a cabeça amarelada do marido com pares e mais pares de chifres, mas ele não sabia ou fingia não saber de nada, em nome do amor.
O tempo foi passando, e por fim ela se cansou do pavoroso marido, saiu de casa e foi para o único cabaré de Vila de São João. O Esquilo abandonado não se conformou, foi procurá-la e implorou que voltasse para casa, mas ela riu e não voltou. Ele vendo que não arranjava nada sozinho, resolveu pedir a ajuda do Delegado Zurico. O Delegado explicou ao Tião que não podia obrigar a Bentinha a gostar dele, mas acabou prometendo ver o que podia fazer.
O Delegado subiu o morro que levava ao cabaré da marrequinha e deu um bom susto na Bentinha; ela ajuntou a trouxa e voltou para casa. Um ano depois, o fato repetiu-se. Já um pouco impaciente, Delegado Zurico assustou de novo a infiel morena. Mais uma vez ela voltou aos braços do marido tolerante. Na terceira fuga da moça, o Delegado perdeu por completo a paciência, e soltou os cachorros em cima do infeliz. Esbravejou nos ouvidos do Esquilo, que aquilo não tinha mais jeito, que ele largasse de vez aquela vagabunda e fosse cuidar em outra coisa, e terminou perguntando: Você é um homem ou um rato?
Tião Esquilo pulou da cadeira onde estava assentado, e gritou com um jeito muito cômico "pois eu gosto dela uai..."e partiu direto para a casa da Marrequinha. Ele que subiu, a Marreca que desceu gritando pelo Delegado.
Zurico subiu correndo e parou espantado, a Bentinha estava caída no chão; fora esfaqueada pelo marido, e este chorava abraçado ao cadáver. O Delegado lhe deu voz de prisão dizendo: "ora essa, você é mesmo exagerado, primeiro um exagero de paciência e agora esse exagero de violência". Esquilo foi a júri e foi julgado inocente pelos jurados que conheciam sua confusa história. Dois meses depois que saiu da cadeia, casou-se com uma viúva velha e feia como ele e foram felizes até demais.