Há muitos e muitos anos atrás, o vigário de Vila de São João era um padre jovem, arrogante e destemido. Cuidava de seu rebanho de fieis, pregava a palavra de Deus com fé e boa vontade, mas o jeito que ele ensinava o Evangelho do Senhor, não agradava nem um pouco aos coronéis da família dominante do lugar. Consideravam ofensiva a maneira que o padre falava: ele prometia o céu e a bem venturança eterna aos humildes e oprimidos, e ameaçava com as eternas penas do inferno aos opressores e injustos.
E com o passar do tempo, o que era uma pequena diferença de idéias, tornou-se uma enorme rixa, com ataques verbais de lado a lado. Porém dessa briga de linguarudos o padre levava a melhor, porque era dono do púlpito de sua igreja de onde podia falar a vontade, e tinha ouvintes garantidos em seus fiéis, que o apoiavam por que se sentiam mesmo oprimidos e injustiçados.
O velho coronel Zeca, patriarca da família atacada, a princípio achou até graça naquela troca de desaforos, mas quando o vigário começou a atacá-lo também, a graça acabou, e o poderoso senhor mandou advertir ao padre que ele seria expulso da Vila montado em uma égua velha e piolhenta, se não se calasse; foi pior a ameaça, o padre era mesmo valente e se danou. Arranjou até um prefixo, e só iniciava seus sermões dizendo: eu sou padre Joaquim Santana sem medo, do colarinho em pé; continuarei dizendo a verdade e defendendo os fracos com a ajuda do Senhor. Fazia uma pausa e dizia com ênfase: ninguém vai me tirar de minha paróquia montado em nenhuma égua piolhenta.
Daí para a frente ele continuava cada vez mais exaltado, cada vez mais duro e verdadeiro, e a verdade sobre os que se julgam grandes senhores, jamais foi tolerada. Os coronéis agüentaram enquanto puderam os destemperos lingüísticos do rixento pároco, mas acabaram perdendo a paciência e o respeito com o jovem padre, e partiram para a violência. Armaram seus jagunços e levando uma égua velha e piolhenta pelo cabresto, se dirigiram para a casa paroquial dispostos a expulsá-lo conforme havia sido prometido. Não contavam que a valentia do vigário fosse além da língua, mas ia. Ele se fechou na casa com uma banana de dinamite em cada mão e gritou pela janela seu irritante prefixo, exibindo-se; eu sou o padre Joaquim Santana sem medo, do colarinho em pé, entrem filhos de Satanás e voaremos juntos, eu para o céu e vocês para o inferno.
A família dominante e seus jagunços eram valentes, mas ninguém era fanático pela valentia a ponto de enfrentar a perigosa ameaça daquele padre encrenqueiro. O cerco à casa do vigário continuava dia a fora e os amigos dele temiam que o pior acontecesse; e os mais preocupados eram José Higino e seus filhos, porque um deles era o sacristão da igreja e adorava o vigário.
Resolveram mandar pedir ajuda na fazenda do Comendador Inácio, que também era poderoso e por sorte era amigo fiel do padre Joaquim Santana. O Comendador armou seus homens e correu para a Vila. Lá chegando, ajudado por José Higino e seus filhos, afastou da casa do padre os coronéis e seus jagunços, e retiraram o enfurecido vigário e o levaram para a fazenda do bondoso Comendador; onde ele ficaria bem protegido. Os frustrados coronéis em falta de outra solução, foram a sede do bispado e pediram ao senhor Bispo que resolvesse o impasse. O Bispo prometeu que afastaria o padre Joaquim Santana de Vila de São João , mas pedia moderação aos coronéis até a substituição do vigário. Prometeram ter paciência, mas ao chegar a Vila resolveram proibir a volta do padre a sua paróquia para celebrar a missa de despedida ao ser transferido de lá.
O teimoso vigário não aceitou de maneira alguma a arbitrariedade da proibição dos senhores coronéis, e marcou dia e hora para sua última missa na Igreja de São João. A poderosa família mandou fechar a igreja, e no dia marcado para despedida do padre, postou-se à porta da mesma com todos os seus capangas resolvidos a não deixá-lo entrar. Na hora marcada o padre chegou, montava lindo cavalo branco com arreios tacheados de prata e estribos do mesmo metal. A sua direita cavalgava o comendador Inácio, a sua esquerda seu amigo José Higino e seus filhos, todos armados de espingarda e fechando a marcha, os agregados do comendador, armados de pesados cacêtes, enxadas e foices.
A estranha e belicosa procissão chegou a porta da igreja, e o Comendador Inácio pediu com bons modos ao chefe dos coronéis que abrisse caminho, pois o padre Joaquim Santana ia rezar a missa e apresentar suas despedidas a seus paroquianos. A resposta brusca e decidida foi um não, e então o gigantesco José Higino empurrou o zangado Coronel, e seguido do padre e de todos os outros, forçou a passagem e abriu com um pontapé a pesada porta da igreja. Entraram vitoriosos e tocaram o sino chamando os fiéis. A igreja se encheu de gente e o padre devidamente paramentado, subiu ao altar cercado por sua guarda armada de cacêtes. E começou a celebrar a Santa Missa. Os inimigos do padre também entraram na igreja, e eram atentamente vigiados pelos amigos dele.
Na hora da pregação ninguém esperava que ele tivesse a ousadia de subir ao púlpito, mas ele subiu a falou mais de uma hora, despediu-se de seus paroquianos, agradeceu o apoio de seus bons e corajosos amigos e lhes deu a sua benção, e pela última vez desacatou todos os membros da família que ele desaprovava e combatia. Nunca se viu sermão mais estranho. A doce palavra do Senhor se misturava aos impropérios de um homem profundamente ofendido e irritado Pela última vez se ouviu naquela igreja o odiado prefixo: eu sou o padre Joaquim Santana sem medo, do colarinho em pé, vou embora dessa Vila em obediência ao Senhor Bispo, não por medo de ninguém, sustento tudo que disse nos meses que aqui fiquei.
O mundo é de Deus e só a ele devemos vassalagem, esses que se julgam senhores neste mundo, se tornarão carne podre e depois pó, da mesma maneira que o mais inculto e pobre homem da face da terra, por isso somos todos iguais. Só Deus é rei, e poderoso, e terminando disse: a família que me persegue, está perseguindo um Servo do Senhor e por Ele será castigada; terão pobreza, doenças incuráveis e num futuro bem próximo, servirão de zombaria para os que agora os temem, terão problemas e mais problemas, e essa Vila de São João, palco de todos esses lamentáveis acontecimentos, jamais será uma cidade próspera, e seu povo não será feliz. Será uma terra madrasta, onde os filhos de outras terras prosperarão, acabará em buracos de formigas. Que a minha benção sirva de escudo a meus amigos e seus descendentes, contra a ira e justiça do Senhor.
Terminando de falar o padre se retirou, sempre guardado por seus amigos, que choravam a sua partida. Na porta da igreja montou a cavalo, ergueu a mão direita e os abençoou em despedida e saiu da Vila de São João para sempre, ficando no ar para a eternidade as palavras atemorizantes para uns, e confortadoras para outros, do Padre Joaquim Santana sem medo, do colarinho em pé.