Nascera do sexo feminino, deram-lhe o nome de Maria Angélica. Enquanto foi criança, assim era chamada, mas as crianças crescem, se tornam moças adolescentes, e depois mulheres adultas. O crescimento não fora benéfico para Maria Angélica; se não era uma criança linda , pelo menos era aceitável, mas como adulta era uma figura feia e desagradável à vista. Por algum desarranjo de hormônios, ela se tornou uma mulherona de um metro e oitenta de altura, pesava mais de cem quilos e era dessas gordas desajeitadas, tipo saco de fubá. Nada nela era adequado, uma coisa não combinava com a outra. O rosto era grande e redondo, com enormes olhos saltados de uma indefinida cor amarelada, enorme nariz bulbosa e vermelho, boca rasgada quase sem lábios, e dentes cavalares. Cabelos possuía poucos, o que era uma benção, pois mais pareciam palha de aço descolorida com soda cáustica, cabelos como aqueles, melhor seria ficar careca.
As mãos e pés de Maria Angélica eram os maiores do mundo, grosseiros e trincados, enfim aquilo não era bem uma mulher, era um desastre, um despropósito. Claro que ela era vítima de toda espécie de brincadeiras de mau gosto; até que um dia a pobre perdeu a paciência e deu tremenda surra em um marmanjo, que ria às suas custas. Ninguém mais aborreceu a coitada, para isso o exemplo serviu, mas serviu também para lhe fornecer um apelido: Maria Tomba Homem.
Estava morta e enterrada Maria Angélica. Nascia naquele dia Maria Tomba Homem. Apesar de tanta desvantagem, ela era uma mulher e possuía um doce e terno coração, e sendo assim, acabou se apaixonando por Diquinho, um rapaz raquítico, magrinho, miudinho, difícil de se encontrar igual, e para surpresa geral, o coisinha se interessou por ela, e acabou em casamento aquele estranho namoro. Diquinho nada possuía de seu, e a mulher era dona de um pequeno sítio, de onde passou a retirar, além de seu costumeiro sustento, o sustento do franzino consorte.
Maria Tomba homem já passara bem dos trinta anos, e o maridinho andava aí pelos vinte e dois, mais ou menos, mas viviam felizes, ela trabalhando na enxada, ou cuidando de duas ou três vacas, algumas galinhas e porcos; ele deitado numa rede macia da varanda, bem vestido e calçado com macios chinelinhos, alimentado carinhosamente pela mulherona com franguinhos, sopinhas e docinhos, desfrutando a vidinha que pedia a Deus. A única obrigação do descansado marido era cumprir seus deveres particulares de homem todas as noites. Com isso, a feiosa esposa se contentava e se dava por feliz, acreditando-se muito amada. O tempo foi passando e o esquisito sistema de vida do desajeitado casal não mudava, filhos não conseguiram ter, o amor maternal da mulher era transferido para o marido, e cada vez mais o sabidinho se aproveitava dela. Ele era nanico, mas era bem dotado de saúde, e com o trato esmerado que recebia, se recuperou do raquitismo, e se era baixinho, por outro lado, possuía bonitos olhos, boa prosa e começou a enjoar da honrada e feia mulher que possuía.
Maria, de nada desconfiava, privava-se de qualquer conforto para dar tudo a seu bem amado. Mas, de repente, ela começou a notar um riso de mofa no rosto das pessoas e cochichos quando passava, e por mais crédula e burra que fosse, começou a farejar algo errado, e tanto cismou, que resolveu vigiar um pouco sua propriedade.
Maria saía antes do alvorecer para trabalhar na roça, voltava para preparar o almoço de seu queridinho e novamente ia para os campos trabalhar. Era sua rotina; e sua única alegria, eram os carinhos fingidos do vadio à noite. Enciumada, a mulher resolveu mudar um pouco seus horários, e no primeiro dia que voltou, sem ser esperada, encontrou Diquinho aos abraços e beijos na varanda com a mulata Narcisa, uma beleza cor de café com leite.
Com dificuldade, a feia criatura se conteve e ficou escondida para ver até onde ia aquilo, e viu seu amor trocar carinhos com a mulata durante muito tempo, as lágrimas corriam silenciosas pelo seu rosto, que se contorcia de ódio; para ser a encarnação da Medusa mitológica só lhe faltavam as serpentes em lugar de seus feios cabelos.
A infeliz agüentou tudo o que viu, até o momento em que Diquinho e Narcisa se dirigiram ao seu quarto de dormir. Isso era demais! Os dois safados mal tiveram tempo de se deitarem. Quando Maria Tomba Homem entrou no quarto, eles levantaram apavorados pois ela era, naquele momento uma visão de horror: desgrenhada, o rosto contorcido, o corpo trêmulo, quase em convulsões, e pior que tudo, nas mãos enormes, trazia uma pesada foice. Era a morte andante, era o demônio revivido.
Diquinho e Narcisa tentaram fugir, mas não era mais possível. Maria golpeou duas vezes com a foice e as duas cabeças caíram, rolando ensangüentadas pelo chão e ela ficou ali petrificada por muito tempo olhando o que fizera. Depois ela se moveu, apanhou a cabeça do marido, assentou-se no chão e ficou embalando nos braços, como se fosse uma criança, aquele despojo horrível. Seus olhos arregalados e vazios mostravam a dura verdade: a desgraçada enlouquecera. Dois dias depois, os vizinhos começaram a estranhar a ausência do casal e resolveram investigar, abriram a porta da sala que só estava encostada e pela porta aberta do quarto, viram Maria embalando a cabeça de Diquinho nos braços; correram para fora aos gritos e só pararam quando chegaram à delegacia de Vila de São João, onde contaram, confusamente, ao Delegado Zurico, o que haviam visto.
O Delegado montou rapidamente no cavalo e acompanhado de um soldado, dirigiu-se à galope para o local do crime. Zurico era um homem endurecido por longos anos lidando com toda espécie de crimes, mas até ele ficou abalado com aquela cena dantesca: a louca embalando a cabeça decepada do marido e olhando fixamente para os olhos arregalados da cabeça de Narcisa. O cheiro no abafado cômodo era nauseante e formigas cabeçudas passeavam sobre os dois cadáveres. O Delegado engoliu em seco, controlou-se e falando mansamente com Maria Tomba Homem, tentou apanhar a cabeça de Diquinho para ajuntá-la ao resto dos despojos já reunidos pelo soldado. Foi a conta, a louca enfurecida avançou contra Zurico, que saiu voando pela porta afora, indo cair na sala. Levantou-se rápido e entrou em luta com a demente, ajudado pelo soldado; a mulher estava possessa, e os dois levaram algum tempo para dominá-la. Amarraram seus braços e sua pernas, colocando-a em um canto da sala, tomaram fôlego e foram cuidar da macabra tarefa de colocar os decapitados em lenções e colchas para levá-los ao cemitério de Vila de São João.
Os apavorados roceiros, a tudo assistiram sem prestar qualquer ajuda, e quando Zurico pediu a ajuda deles para o transporte da louca e dos mortos, eles se recusaram. Aí o Delegado perdeu a paciência e apanhando seu conhecido chicote, com poucas lambadas colocou todos a serviço da lei. O povo de vila de São João parou estarrecido, ao ver entrar na rua que levava ao cemitério, o estranho cortejo: na frente, o soldado à cavalo gritando para abrirem passagem, em seguida, os roceiros com os rostos cobertos com panos, carregando os dois banguês com os mortos e fechando a marcha, o delgado Zurico, trazendo pelas rédeas o cavalo onde estava Maria Tomba Homem, atravessada na sela e muito bem amarrada, soltando gritos estridentes.
Os mortos enterrados, a louca foi levada para o hospício da cidade grande, onde viveu mais de vinte anos, sempre embalando algo nos braços vazios sempre resmungando o nome do falecido Diquinho.
Vez por outra, ela se enfurecia e era colocada em camisa de força até se acalmar e voltar a embalar seu neném imaginário. O povo da vila por muito tempo, acordou em sobressalto, julgando ouvir saindo da noite os gritos apavorantes de Maria Tomba Homem, a mulher feia, perseguida pelo destino.