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CONTOS DA VÓ FIA



BUGRINHA



A fazenda do barreirinho se estendia por uma das margens do rio do Cervo. A casa grande vinha do tempo da escravidão, com suas grossas paredes caiadas de branco, assoalhada com pranchões, e sua ermida tradicional, onde a família do fazendeiro Sô Deca e os colonos, rezavam o terço todas as tardes antes do escurecer, para agradecer o proveitoso dia de trabalho e pedir uma boa noite de descanso.

Naquelas terras viviam muitas famílias, todas iguais, gente inculta e boa. Trabalhavam e estavam sempre em paz. Mas uma dessas famílias era diferente, vivia afastada dos demais colonos, morava na parte da fazenda onde o mato era fechado e não gostavam de convivência. Viviam sós e não eram muitos, apenas Camilão, Sá Rita, dois meninos pequenos e uma mocinha de seus 13 para 14 anos chamada Lica.

Camilão e Sá Rita não eram casados, e o homem era pai dos dois pequenos. Lica, a mocinha, era filha do falecido marido de Sá Rita. A mocinha sempre fora criada no meio do mato, era assustadiça, se escondia quando via gente estranha. A única pessoa com quem falava, era Dona Emídia, a santa esposa do fazendeiro dono do barreirinho.

Vez por outra, Lica se aproximava pelos fundos da fazenda atraída pela bondade da fazendeira e era recebida com agrados por Dona Emídia; ela não entrava, ficava na porta da cozinha, pronta para se esconder se aparecesse alguém. Isso já vinha de muitos anos e Sô Deca, o fazendeiro, não aprovava a situação, pois não gostava de casais vivendo maritalmente em suas terras, mas Dona Emídia tinha muita pena da mocinha e ia convencendo o marido a deixá-los morando lá mesmo.

Quando Lica chegou aos quatorze anos, Sô Deca ouviu Camilão dizer que Sá Rita estava velha e ele ia jogá-la ao rio e ficar vivendo com a menina Lica. Quando soube disso, Dona Emídia ficou assustada e com pena da mocinha, mas Camilão era homem de má fama e ela aconselhou o marido a dar queixa ao delegado Zurico, que saberia o que fazer.

Assim que o fazendeiro explicou o assunto, o Delegado montou a cavalo, e seguiu para o barreirinho, acompanhado de um soldado. Iam bem armados, pois poderia haver confusão. Embrenhando pelo mato, Zurico logo avistou a choça de Camilão, e o próprio deitado à sombra de uma árvore, pitando um cigarro de palha, enquanto a mulher e Lica trabalhavam na enxada, debaixo de um sol de derreter os ossos. Ao ouvir o tropel dos cavalos, Lica correu e se escondeu no mato e Sá Rita entrou na choça com os pequenos que brincavam por perto. Restou Camilão, que continuou deitado, apenas perguntando o que os estranhos queriam.

O delegado se identificou, e disse que viera buscar Lica para colocá-la com uma família boa. Camilão se levantou como uma cobra, puxou da faca e desafiou o delegado a levar a mocinha. Um minuto depois estava dominado e levando a maior surra de chicote, aplicada por Zurico. Serenado os ânimos, o delegado e o soldado tiveram o maior trabalho para pegar a mocinha sem maltratá-la, ela era mesmo uma bugrinha, gritava, e esperneava quando foi levada para a fazenda do barreirinho.

Camilão recebeu ordem de sair daquelas terras em vinte e quatro horas, ou seria preso por muito tempo. Ele ajuntou a trouxa, mulher e filhos e sumiu da região para sempre. Dona Emídia queria ficar com Lica, mas o delegado achou melhor não arriscar, Camilão poderia voltar e criar problemas.

Levada para a Vila de São João, Lica só vestia um trapo de chita sobre a pele, e tinha um pedaço de pano encardido amarrado na cabeça. A esposa do delegado era sobrinha de dona Emídia e tão bondosa quanto ela. Tratou logo de arranjar roupas limpas e decentes para a mocinha, e mandou que ela tomasse banho, mas Lica recusou-se e ficou agachada num canto enorme da cozinha; não estava habituada a banhos e tinha medo.

O delegado foi chamado, e sua presença resolveu o assunto. Lica entrou na grande bacia de água, e foi valentemente esfregada por Zalina, a lavadeira da família do Delegado. Depois de bem limpa, seus cabelos foram cortados rentes, porque nunca haviam sido penteados e eram um embolado só.

Solucionados esses problemas, Dona Marica, a esposa do delegado, mandou servir comida a mocinha que se recusou a comer embora estivesse morrendo de fome. Dona Marica mandou saírem todos da cozinha e ficando só, Lica resolveu comer, mas comia com as mãos, olhando assustada para os lados como se comer fosse um crime.

Tudo resolvido, o delegado explicou a Lica que no dia seguinte ela seria levada para a cidade da Vargem, onde iria morar com uma senhora muito rica e muito boa, que cuidaria muito bem dela; foi a conta, a mocinha começou a chorar e pediu para ficar com a esposa de Zurico, porque ela sobrinha de Dona Emídia e seria boa para ela, como a fazendeira o fora.

Zurico fez ver a menina, que sua casa era pobre e ela ficaria melhor com a senhora rica, mas ela não entendia e continuava a chorar, apavorada com a possibilidade de viver com estranhos, o delegado acabou concordando e a mocinha ficou em sua casa mesmo.

Os primeiros dias foram difíceis para todos; Lica não sabia nada de serviços caseiros, se recusava a dormir na cama preparada para ela; gostava de dormir no chão duro como estava acostumada, levantava-se de madrugada e ia capinar o quintal, de onde era trazida para dentro de casa por Dona Marica, que se esforçava para ensinar a menina serviços domésticos e maneiras mais civilizadas. Apesar do espírito de bugre, Lica era boa, e logo se apegou a filha pequena do delegado, que passou a carregar sempre nas costas e a quem fazia todas as vontades.

Tratada sempre com compreensão e bondade ela foi aprendendo a viver de maneira normal, era esforçada, falava pouco e trabalhava muito, em poucos meses aprendeu a cuidar de uma casa com perfeição, trazia tudo limpo, e aprendeu a cozinhar e a fazer doces, bolos e a lavar e passar roupas.

Mas continuou a comer longe das pessoas e a não aparecer quando chegavam visitas, e positivamente odiava sapatos e chinelas. Dona Marica não conseguiu ensiná-la a andar calçada. Outra derrota sofrida pela bondosa esposa do delegado foi sobre alfabetização. Lica era analfabeta e queria continuar assim. Dona Marica arranjou uma professora particular para ela, mas depois de poucas aulas, a mestra sumiu.

Zurico foi saber o que acontecera e foi informado pela moça que Lica deixara bem claro que não queria aprender a ler, que aquelas letrinhas confundiram sua cabeça e o jeito foi esquecer o assunto.

Lica viveu feliz com a família do delegado, acabou casando com um Tio de dona Marica, e ainda vive, simples, feliz e descalça. Ainda trata a filha do delegado como se fosse ainda criança, e é tratada com o mesmo carinho por ela e seu irmão.

Não existe mais a bugrinha, e sim a dona de casa e zeladora da igreja, fiel amiga de seus amigos.

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