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BLUES DO VIAJANTE



TABULEIRO EXISTE

Por Terence Keller

LAPINHA E TABULEIRO

Já faz um bom tempo que ouvia relatos desta tal travessia. Diziam as boas línguas que existe um lugar entre as montanhas de Minas Gerais que tem poucos moradores, cachoeiras próximas e um imponente Pico que lembra um lugar escuro. Mas o melhor ainda estar por vir. O tal lugar é caminho para uma das maiores cachoeira do Brasil!

Sinceramente sempre achei que isto era mais um causo dos nossos contadores, destes que já viram desde mula-sem-cabeça a saci pererê no nosso cerrado. Então resolvi tirar a prova na primeira oportunidade que aparecesse. Como trabalhei um tempo em Cardeal Mota, bastante conhecida como Serra do Cipó, tive oportunidade de conhecer o Buiu - Guia turístico local - que me deu um toque de uma excursão do RJ que estava interessada em fazer este caminho no próximo fim de semana. Como não queria sobrar igual azeitona na boca de banguelo arrumei a mochila, chamei o Roberto, (amigão que sempre quis fazer esta travessia também) e iniciamos a caminhada rumo ao desconhecido.

Marcamos de encontrar os cariocas em Lapinha. Conseguimos uma carona com um casal de amigos nossos que desenvolviam um trabalho nesta localidade. No caminho o carro deu problema - super aquecimento - Fizemos um puta trabalho de equipe para retirar a água do limpador de para brisa e coloca-la no radiador. Se fosse uma dinâmica em grupo para entrar numa empresa, estaríamos todos contratados. Enfim, chegamos à terra prometida. Lapinha, localizada entre as montanhas de Santana do Riacho (MG), é um vilarejo bastante interessante. Muito provavelmente sua origem está relacionada, creio eu, com as viagens dos tropeiros e bandeirantes que atravessavam as montanhas em buscas de novos mercados. Construída na base do Pico do Breu, de onde se têm vistas para duas cachoeiras que não me lembro o nome agora, a localidade preserva uma simples capela e poucas casas que foram se erguendo ao redor da mesma.

Começamos então a árdua caminhada numa sexta-feira de manhã. Neste dia estava sendo comemorada uma festa de Nossa Senhora da Aparecida. Haviam vários cavalheiros no alto da serra soltando bombas e tomando a famosa cachaça mineira. Achei aquele ensurdecedor barulho algo fora do normal, porém, como fazia parte de uma cultura herdada dos antepassados, não sobraram críticas.A primeira parte é a mais cansativa, pois estávamos subindo uma serra longa e inclinada com as mochilas bastante cheias. Ao chegar no alto da mesma tivemos uma visão fantástica de um enorme campo de um lado e do vilarejo de Lapinha do outro. O percurso pelo campo é super legal. Existem bastantes espécies vegetais, alguns gados dos fazendeiros locais e vários cursos d'água. Fizemos uma parada no leito do córrego Parauninha. Na realidade este lugar deveria ser chamado de prainha pela presença de areias finas e brancas durante o seu curso. Estávamos bem próximo da nascente. Suas águas, como já era de esperar, tinham temperaturas extremamente frias ( regiões de montanhas). Seguimos viagem.

O primeiro acampamento foi realizado numa região muito legal. Infelizmente não sei o nome, pois não tinha uma carta topográfica na mão. Porém era um grande campo florido, rodeado de montanhas com um córrego cortando o mesmo, onde durante a noite, as únicas coisas possíveis de se ver eram estrelas e aviões. No outro dia continuamos a viagem. Neste trecho tivemos oportunidade de conhecer um "tropeiro" que levava alimentos de Lapinha a Conceição do Mato Dentro em cima de um jumento. Achei impressionante como ainda existe este tipo de comercialização em Minas Gerais. Mais impressionante ainda foi um casal de idosos que conhecemos também. Ambos moram no alto de uma serra, bem isolados das comunidades locais. Vivem do plantio de hortaliças e criação de animais que os sustentam, juntamente com alguns poucos empregados e amigos.

Neste trecho tivemos oportunidade de presenciar um fenômeno natural muito interessante, a formação de um arco-íris ao redor do sol. Fantástico!!! Finalmente, após uma caminhada de dois dias, chegamos na parte de cima da maior cachoeira de Minas Gerais. O topo da Cachoeira do Tabuleiro é bastante úmido devido a grande altitude e ao excesso de vento contra o curso d'água. Lá vivem algumas espécies de pássaros (andorinhões), uma vegetação que parece brotar das pedras e oferece um visual de todo o curso do rio que forma a cachoeira. Tivemos a oportunidade de presenciar algumas pessoas nadando e outras escalando. Passamos o restante da tarde nadando nas várias cachoeiras e poços que formam a maior de minas. Seguimos viagem no outro dia para a Cachoeira de Cubas, em Conceição do Mato Dentro. Este é mais refúgio que Minas Gerais preserva entre suas montanhas. Pena que ficamos muito pouco tempo neste local, pois tínhamos marcado de voltar com uma van que vinha de Belo Horizonte. Assim foi uma das viagens mais legais que fiz em minha vida. Realmente pude constatar que este lugar existe e está bem mais próximo do que eu esperava. Valeu!!!

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