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BLUES DO VIAJANTE



TRAVESSIA CATAS ALTAS CARAÇA

Por Carlos Ranna

Caraça

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A partir deste ponto, tudo se torna mais perigoso. Cada vez mais é necessário escalar paredes de pedra para se chegar ao topo. A íngrime trilha somada ao cansaço decorrente da subida se torna uma grande aventura. Em muitos momentos é inevitável que um ou outro pensamento de desistência passe pela sua cabeça, mas o sol daqui a pouco se põe, descer deve ser tão ou mais difícil que subir e você não é nenhum trouxa de se arrepender pelo resto de sua vida por ter pagado pau tão perto do objetivo, assim sendo tomamos coragem, e passamos por subidas e penhascos cada vez mais desafiadores.

Chegamos!! Ao fim do primeiro dia, estávamos lá, a tempo de montar as barracas e ver o sol se por. A temperatura vai caindo, os missim miojo vão descendo pela garganta, e enquanto uma pobres almas se torturavam ouvindo KLB, nós nos encontrávamos perto do céu, um pedaço de paraíso!

A essa hora da noite, dois efeitos de nossas ações se mostraram bem claros e aterradores. O primeiro era a dor que apareceu em meu joelho, provavelmente eu havia torcido-o durante a subida e por estar aquecido continuei subindo sem perceber que estava forçando minhas juntas cada vez mais. O segundo, teve sua origem ainda em Santa Bárbara, onde Magneto havia comido uns quatro sanduíches de lingüiça. Eu fui o azarado que dividiu a barraca com ele, enquanto Téras Man e Marcus Cristo iriam dormir na outra.

Eu até havia levado uma terceira barraca comigo, mas já estávamos deitados, morrendo de frio e eu não iria monta-la sozinho, pois ainda tinha a esperança de que aos poucos os gases cessassem. Ledo engano, era uma saraivada sem fim de dar inveja a qualquer soldado israelense, e nessa história eu não passava de um pobre palestino, bombardeado sem piedade pelas forças malditas de Magneto. A única solução possível foi tomada. Um ataque suicida! Como eu estava perto da porta, abri a barraca, e nós passamos a noite sob o frio e o vento da montanha, que convenhamos, são muito mais agradáveis do que os restos de jantar do meu companheiro de viagem.






Domingo de manhã, após assistir a um dos mais belos pôr do sol visto por algum humano e bater fotos lindíssimas para o Desvendar.com, nosso plano era descer a outra face do pico, atravessar um vale e subir o Pico do Sol. Meu joelho estava doendo ainda mais do que na noite anterior, e quando olhamos o que tínhamos pela frente... Nem dá para descrever, é lindo mas não parecia ser tarefa das mais fáceis não. Começamos a descer, é uma trilha (eu disse trilha? Ninguém vai lá, é claro que não era trilha e sim o caminho que nós seguimos!) muito inclinada, mais ainda do que o lado que subimos. Foi necessário muito trabalho de equipe, em vários momentos usávamos cordas para descer as pesadas mochilas e alcançar o vale.


Quando chegamos lá embaixo e olhamos para trás, quase não acreditávamos que havíamos passado por aquilo, um paredão semi vertical de rocha, com 700 m de altura! Impressionante! Mas bastou voltar a cara para o que tínhamos pela frente para o susto aumentar, o vale que havíamos visto lá de cima, se mostrou uma densa floreta, com muitas rochas e poucas passagens. Gastamos horas procurando pelos melhores caminhos ali, quando enfim conseguimos chegar ao pé de uma montanha que costeia o vale e fomos seguindo por ela. Foi neste momento caros amigos, que meu mundo desabou em cima de... meu joelho. Andar inclinado, entre o mato e a montanha, tendo que subir e descer toda hora, nenhuma posição poderia forçar mais meu ferimento do que esta. Foram horas andando assim, com a mochila nas costas e o pé torto. Meu joelho doía por demais e em vários momentos fui ficando para trás.

Quando a tarde já ia chegando ao fim (note que já se passou um dia inteiro de árdua caminhada), chegamos ao pé do Pico do Sol. Agora era tudo moleza, bastava subir 850 m em pouquíssimo tempo, para montarmos nossa barraca e descansar. Ao nosso lado esquerdo, tínhamos o Pico do Baiano, que tinha sua outra face voltada para Catas Altas. Cheguei a pensar em tomar a direção contrária à de meus companheiros, atravessar o Pico do Baiano e voltar a Catas Altas no dia seguinte para me medicar. Mas fui impedido pela galera que me convenceu que eu ia me estrepar mil vezes mais sem a ajuda deles.

Começamos a subir, o cansaço era visível em todos, não parávamos de reclamar e fazer piadas sobre nossa situação (sim, porque não é só porque nós estamos ferrados que vamos perder nosso senso de humor, oras!), minha perna parecia que ia estourar, e o sol estava cada vez mais baixo. Marcos Cristo e Terás Man, preocupados com o horário começaram a imprimir um ritmo mais forte à subida, e Magnetos fazia o possível para me ajudar a acompanhar. Otimista que sou, me lembrei de Amyr Klink, e de como ele ganha dinheiro contando suas experiências para empresários de todo o mundo. Espero que eu também possa ganhar algum, afinal deu para aprender que mesmo que tudo pareça contra você é necessário manter o foco e continuar subindo, além de outras lições sobre planejamento, mochilas mais leves, etc... Não vou entrar em detalhes senão não vai dar para cobrar pela palestra. pós todo este sofrimento, mais uma vez fomos recompensados pelo visual! Perdemos o Por do sol lá de cima, mas pelo menos assistimos de quase lá em cima. Chegamos à noite, montamos a barraca, deitamos e respiramos fundo. Ops! Quem peidou? Adivinha... Lá estava eu dentro da barraca novamente com o monstro, e o pior é que ele me implorava para não abrir a porta por causa do frio, é mole? Não me fiz de rogado, desta vez me levantei e montei a terceira barraca, garantindo assim que mesmo acabando com meu joelho (que dói até hoje) não precisaria fazer isto com meus pulmões.Acordamos, o nascer do sol é ainda mais lindo do que no Pico Catas Altas, ou não! É impossível saber, aquela cor vermelha sobre as nuvens que cobrem tudo e aos poucos vão sumindo... Oh Minas Gerais!! Cê é bonita demais!

Nos reunimos, eu era um peso pesado demais para ser carregado, chegamos portanto a uma decisão unânime: Eu seria deixado para trás sem provisões, deixado para os urubus, enquanto o resto da equipe seguiria rumo ao Pico do Canjerana. Brincadeira! Pô, os caras são meus amigos, né! E também ninguém agüentava mais, portanto escolhemos caminhar em direção ao parque do Caraça, e dar fim a essa viagem doidona. Andamos o dia inteiro, e parecia ser mais cansativo do que os outros dias, chegamos ao parque em cima da hora de fechar, e ainda tivemos que correr para pegar o ônibus, é mole?

Foi tudo muito pedreira, do jeito que a gente gosta! Foi cansativo e infelizmente me machuquei, mas e daí? Valeu a pena demais e eu faria tudo de novo! Afinal estava muito bem acompanhado e em um lugar abençoado de tão bonito. O próximo passo desta equipe? Não sei, mas ouvi rumores sobre um tal Pico da Bandeira, ou o parque Grande Sertão Veredas... Sei lá! Mas com certeza estará tudo bem relatado para você aqui, no Blues do Viajante.

Um Abraço,

Carlos Ranna.

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